Cabelos loiros e longos. Olhos azuis da
cor do mar. Rosto desenhado. Dentes alvos e perfeitos que fazia de seu sorriso
uma atração. Corpo escultural e bronzeado na medida. Linda? Muito mais do que
isso. Sempre bem vestida, com aprumo e discrição, com roupas de grifes famosas.
Mas era com um - dos inúmeros biquínis - que Gabriele fazia até instinto de
crente titubear. Perfeição é muito pouco para defini-la. Além disso, o pai era
milionário o que lhe proporcionou estudar nos melhores colégios da capital,
além de frequentar muitos cursos. Poliglota, além do português impecável,
escrevia e falava fluentemente mais quatro idiomas: inglês, espanhol, francês e
italiano.
Não bebia nem fumava. Combatia o ‘tédio’ com muita malhação. Seguia
rigorosamente a dieta da nutricionista. Saía poucas vezes. Só
frequentava baladas de boates renomadas e festas de abastados. Os poucos
privilegiados que ficaram com ela conseguiram, no máximo, acariciar seus
cabelos. Desconversava quando, com as poucas amigas, o assunto era sexo. Não tinha vergonha de confidenciar que era
virgem e de admitir que sentia uma vontade quase incontrolável de perdê-la,
porém tinha que ser com um homem que
realmente sentisse tesão.
Aos 20 anos de idade se permitiu participar do Carnaval. O seu primeiro.
Na primeira noite limitou-se a ficar aproximadamente uma hora no QG. Na
segunda, embalada com cinco latinhas de cerveja, chegou a adentrar no clube, mas
logo saiu por sentir-se mal. Na terceira não participou da festa. Na quarta e
última noite, completamente recuperada do mal-estar, suas amigas conseguiram
persuadi-la a acompanhá-las.
Por volta das 23h faltou luz no QG. Um problema no interruptor obrigou
Alexandre, o presidente do bloco, acordar um eletricista para providenciar o
conserto. Naquela noite, Videlvino, o eletricista, casado e pai de três filhos,
ainda exalava o cheiro de suor. Seu hálito denunciava que, depois de muitos ‘martelinhos’,
o cardápio do jantar incluía salame, cebola em conserva e arroz e feijão
temperados com muito alho. Vestiu seu macacão amarrotado e sujo e calçou suas
botas imundas e malcheirosas.
Quando chegou ao QG, iluminado pelos faróis dos carros, estava ainda
meio tonto e sonolento. Esbarrou-se com Gabriele. Ambos se encararam. Ele
seguiu para o local onde o problema aconteceu. Ela, tomada por um desejo
incontrolável, foi atrás. Em cinco minutos tudo estava novamente iluminado.
Videlvino recebeu mais do que havia cobrado e, quando se preparava para entrar
no automóvel de Alexandre e retornar para sua casa, foi brutalmente puxado por
Gabriele. Ela o pegou pelo braço e o levou até seu carro. Os gritos de
Alexandre perguntando o que estava acontecendo foram insuficientes. Quando
notou, o veículo de Gabriele, com Videlvino junto, já tinha dobrado a esquina.
Cem metros adiante ela estacionou e o atacou ferozmente. Despi-o. E em
questão de segundos as carícias passaram a arranhões. Também ficou nua. Ele
sussurrava. Ela gritava. Ele beijava. Ela mordia. O que não deu para fazer
dentro do automóvel foi consumado fora. Em 20 minutos ela fez tudo o que se
possa imaginar. Quando notou que Videlvino estava à beira de um desmaio (ou,
quem sabe, infarto) parou. Levou-o para casa. Antes, porém, exigiu que
prometesse que aquela noite teria continuação. Cansado, com a respiração
ofegante, o eletricista, que não tinha forças sequer para falar, apenas fez um
aceno positivo com a cabeça.
Ao ver o marido naquele estado, sua esposa, assustada, indagou o que tinha
acontecido. Videlvino, depois de três minutos recuperando o ar e dois copos de
água, gaguejou: fui atingindo por um choque quando peguei um fio desencapado,
justamente o fio terra.